Good girls go to heaven, bad girls go everywhere!!

Estado de sitio

Meteste-te num avião à pressa e deixaste o meu coração em estado de sítio. Às vezes ainda caio na armadilha do teu charme, vou jantar contigo como quem vai ao cinema com um velho amigo e quando me levanto da mesa depois de duas horas de êxtase, demoro três semanas a descer outra vez à terra.
O meu pai sempre me disse que o maior perigo do mundo não são as guerras nem os ditadores, nem sequer as catástrofes naturais, mas as mulheres com as suas peles de seda, o olhar vítreo a pedir protecção, as bocas de desejo e as curvas infinitas no corpo que despistam os homens, os deixam sem norte nem direcção e lhe estragam a vida.
E tu és a pior de todas. Apareces e desapareces como uma bruxa e ris-te do meu amor louco e desajeitado por ti como se eu fosse um cão e tu o gato que me toureia e atormenta. E eu sinto-me um cachorro, um palerma, um fraco, um idiota cada vez que te vais embora e me castigas com semanas a fio de silêncio, cerro os punhos, olho-me ao espelho e vejo na imagem um homem de meia idade, já com pequenas rugas junto às orelhas e alguns pêlos impertinentes que teimam descer pelas narinas e sinto que não sou nada nem ninguém enquanto não me esquecer de ti.
Sempre tive medo das mulheres e as mulheres nunca olharam para mim. Se a minha mãe for ainda viva, duvido que se lembre da minha existência. Queria uma filha e apaixonou-se por outro homem, disse-me o meu pai quando fiz dez anos. E também me disse, cuidado filho, que isto não é um país, é uma paísa, são elas que mandam em tudo e se não tiveres cuidado vão mandar em ti, usar-te e deitar-te fora como um trapo velho.
Mas eu gosto de ti, que és meia estrangeira e meia louca, que tens olhos de gato e curvas de égua, que falas um português criativo e escreves mensagens escritas com erros de palmatória. Preciso de ti como do ar porque és impossível de agarrar, sem ti a vida é um tédio, uma morte adiada e nem a Luisinha que trabalha no economato me consegue consolar com os seus bolinhos de mel e as suas visitas de tupperware, caldo verde e bacalhau à Braz, uma vez por semana ao meu apartamento acanhado na Graça que herdei da minha mãe, talvez a única coisa que me deu na vida.
A Luisinha também tem curvas e um cabelo que cheira a flores, fala baixinho como um pássaro e rebola-se na cama comigo como um bicho, mas não tem o teu mistério nem o teu charme, não lhe corre nas veias o sangue mestiço que te trouxe até Lisboa nem sabe dizer palavrões quando estás feliz como tu fazes nas noites em que te dou uns copos e te levo para casa. Tu entras sempre antes de mim, olhas em volta como quem visita a casota de um cão, fazes um ar de dó que me faz sentir um verme e depois deitas-te comigo porque te dou pena, porque te apetece ter sexo, porque sabes que ao menos em mim podes confiar, que nunca te vou bater e te empresto dinheiro sempre que precisares.
Daqui a dois ou três meses tu vais voltar, voltas sempre porque mesmo sem teres terra sabes que é aqui o teu canto e eu sonho com o dia em que te vais cansar de subir a um palco, roçar o corpo numa vara besuntada de óleo, de provocar orgasmos em mais de vinte homens por noite e te decidas a ficar ao meu lado. Quando a reforma chegar, tenho dinheiro de sobra para te levar de viagem todos os meses e fazer de ti uma princesa, por isso demora o tempo que quiseres, que eu por cá me aguento, entre mortos e feridos, atrás das trincheiras do meu coração de cão fraco e tonto.

Margarida Rebelo Pinto




Seis e Seis

Tu olhas para uma pessoa, uma pessoa que sabes que não é uma pessoa qualquer, porque o teu olhar fixa-se nela e quando ela olha para ti e sente o mesmo que tu, sentes que alguma coisa vai acontecer. Não sabes nada ainda, mas intuis, intuis com os teus sentidos, com o teu corpo e às vezes com o teu coração que aquela pessoa pode ter qualquer coisa para te dar, que não sabes o que é, mas sabes que um dia vais descobrir e que esse dia pode ser nesse momento, e é então que tiras os dados do bolso e os lanças para cima da mesa.
Quando nos interessamos por alguém, nunca sabemos no que vai dar. Lançamos os dados como quem os deixa cair quase por acaso e muitas vezes nem queremos saber quanto deram: um e um, dois e quatro, três e três, cinco e dois, é sempre um mistério, porque a sorte também manda na vida, manda mais do que queríamos e menos do que gostávamos, por isso desconfiamos dela sempre que nos é favorável, mas aceitamos as suas traições como a ordem natural das coisas, por mais absurdas que sejam.
Os dados caíram quando levantaste o copo e eu vi no chão seis e seis, vi-te a apanhar os dados e a rir, ouvi a tua voz e quando começámos a conversar, percebi que os dados estavam certos.
Gostamos de tudo um no outro; eu gosto da tua casa, da tua música, da tua forma desligada de olhar para o mundo, tardes inteiras a repetir em stereo os melhores sketches do Gato Fedorento, os passeios à beira mar de camisola de lã com capuz, as polaroids com legendas e a forma como te divertes com tudo o que te rodeia. E tu gostas da minha alegria de viver, do meu sarcasmo cirúrgico, de dizer sempre tudo o que penso, sinto e quero, mesmo quando não estás preparado para me ouvir.
Eu gosto de te conhecer e de te perceber, porque és diferente dos outros homens e tu gostas que eu te entenda melhor do que as todas as mulheres. E gostamos de estar um com o outro; à mesa, em casa, com amigos, sem amigos, com sono, sem sono, mas sempre perto quando estamos perto, mesmo que fiquemos longe quando nos afastamos.
Acredito que todos temos direito a ter sorte e que, quando alguém aparece na nossa vida de repente, ou é porque nos vai fazer bem ou é porque nos pode fazer mal. E eu vi-te com bons olhos desde o primeiro momento, achei que me ias ajudar a limpar a tristeza, que a tua presença quase imperceptível na minha vida seria como um bálsamo, uma música perfeita e harmoniosa, um dia ao sol, ou uma noite em branco, daquelas que nos fazem pensar que a vida está cheia de surpresas boas e que vale mesmo a pena estar vivo, só para as saborear.
Tu foste e és tudo isto, e ainda mais agora, que somos amigos; entre nós não há pesos nem amarras e o silêncio não quer dizer ausência, apesar da ausência reinar nos nossos dias.
Quando lançamos os dados, nunca sabemos no que vai dar; tu podias ser um assassino encapotado e eu uma neurótica disfarçada, mas tivemos sorte, porque somos duas pessoas normais, com coração, e dois ou três princípios que nos fazem estar bem com a vida e com os outros.
Só tenho pena de não ser dona do tempo, porque houve momentos que, se pudesse, teria vivido mais vezes ou mais devagar, como quem saboreia um chá de menta, ao fim da tarde, no largo da Igreja a ouvir os sinos. E como escrever é a melhor forma de falar sem ser interrompido, digo-te agora e sem rodeios, fica comigo mais uma vez, vem rir do mundo e adormecer nos meus braços, abrir o teu coração e sonhar acordado, vem ter comigo hoje, porque eu quero lançar outra vez os dados e aposto que vai dar seis e seis outra vez, porque os dados nunca se enganam e a amizade é o amor sem preço e sem prazo de validade.

Margarida Rebelo Pinto

Vá para fora, cá dentro...

Depois do nosso Presidente da República ter pedido aos portugueses que fiquem de férias no nosso país, Bruno Nogueira explica como...


Talvez...

... Eu sofra inúmeras desilusões no decorrer da minha vida, mas farei com que elas percam importância diante dos gestos de amor que encontrarei.

... Eu seja enganada inúmeras vezes, mas não deixarei de acreditar que em algum lugar estará alguém que merece a minha confiança.

... Quando tu sonhares em me querer realmente, eu já tenha encontrado alguém que me queira.

... Eu já tenha desaparecido do teu alcance quando tu te lembrares que eu existo
.

... Eu não seja exactamente quem gostaria de ser, mas passarei a admirar quem sou.

... Eu tenha de enfrentar alguns inimigos, mas terei humildade para aceitar as mãos que se estenderão na minha direcção.

... Eu não tenha motivos para grandes comemorações, mas não deixarei de me alegrar com as pequenas conquistas.

... Um dia eu sofra alguma injustiça, mas jamais assumirei o papel de vitima.

... Quando precisares de mim, eu já tenha perdido a vontade de te ajudar.

... A vontade de abandonar tudo se torna minha companheira, mas ao invés de fugir, irei correr atrás do desejo.

... Com o decorrer dos anos eu perca grandes amizades, mas irei aprender que aqueles que realmente são meus verdadeiros amigos nunca estarão perdidos.

... Se me quiseres amar de verdade eu já tenha transformado esse amor em amizade.

... Com o tempo eu perceba que cometi grandes erros, mas não desistirei de continuar a seguir o meu caminho.

... Um dia possamos nos arrepender daquilo que fizemos, mas o arrependimento é sinal que não tivemos medo de tentar.


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